Sob a Tarja Preta por Rogério Dezzotti
Foto da Campanha Nacional “Criança Não é de Rua”
Hoje o morro se fez silêncio e cantou triste a despedida, sim, mais uma, da qual tentarei falar.
-Me dá um dinheiro. – com a voz insistente e com um olhar de humilhação – Ô tiozinho...
Foram essas palavras que me recordei. Nesse momento, ainda vejo que existe um sorriso-criança congelado na manchete de hoje. Imagino a lágrima-desespero de mais uma mulher-sofrimento.
Ficam assim registradas mais uma morte de um menino-rua... de uma mãe-sem-consolo. Na página que ficou dividida entre os pesos das palavras escritas, das lágrimas de uma face-cansada-revolta de uma mulher e do olhar-descanso-sorriso de um menino que ocultaram sob uma tarja preta.
O morro amanheceu em silêncio, no adeus de mais uma de suas crianças. O pequeno que se foi, é aquele que certa vez encontrei pelas ruas da cidade, próximo da Quarto Centenário com a Delfim, foi o mesmo que me chamou de tiozinho, reconheci-o... Hoje também me faço silêncios-perguntas.
Unidade, cooperação e solidariedade... Princípios humanos?! Entre outros pensamentos que me consomem. Vidas-teorias, palavras abandonadas, simplesmente para serem esquecidas. Egoísmo que no dia-a-dia não protege a fome-criança que não alimentou e nem alimenta.
-Fio, adeus.- Lamento doído, que somente que és mãe gentil pode sentir.
Somam-se a outras iniciais, essas agora, e o fato e a pouca idade revelada ao lado do retrato no jornal de hoje. Dessa vida que não sei nada, compreendo que mais um ser partiu. Partiu dessa vida-miséria para alguns e que outros maltrata.
Bem... mas, quero acreditar que ele deve estar lá, muito além do que possa imaginar; construindo castelinho de areia à beira-mar, brincando de bola, não mais as feitas de meias como costumava brincar.
Espero que esteja reunido com outros pequenos anjinhos, que também, partiram cedo e já não se encontram separados por lares, por escolas ou por vidas tão diferentes. Que esteja, simplesmente, aprendendo a fazer careta, artes, sem nunca mais ter que passar necessidades, fome, violência. Como muitos menores que saem, muitas vezes, à procura de alimento, muito mais do que à procura de afeição, proteção.
Mas, este aqui da manchete de jornal deve estar nos braços do Papai do céu, agora ele tem um pai conhecido, aprendendo a descansar, finalmente, num doce ninar. Ele partiu tão silencioso dentro de uma das vielas do morro, nessa madrugada, encontrado com a boca e as mãozinhas amarradas e sem roupa. Deixando um espaço e o egoísmo do vazio-saudade de quem morre... e cria uma ausência que parece que vai nos levar.
Até quando sonhar com mitos? Até quando esperar por alguém que ensine onde mora Deméter, para que implore a ela que venha abastecer tantas mesas nas horas do café, almoço e jantar, ou aonde encontrar Ártemis e que esta ensine a arte da caça. A fim de que muitos não tenham que procurar, nesta cidade-selva, os restos dos lixos, dos finais das feiras. O mesmo resto que ninguém quis levar.
Neste momento, fico com o que me cabe, com o que me reta: o silêncio-vergonha.
Os olhos sob a tarja preta são os mesmos que noite dessas, num breve encontro me assustaram, e depois disseram-me:
- Vá com Deus, tiozinho. Obrigado.
- Amém. – foi o que respondi aliviado.
Sabe menino-rua, menino-sem-nome, menino-iniciais, Hoje chora a mãe, o morro e eu. Pois, no silêncio da imagem dessa foto ainda se pode encontrar um sorriso-miséria, o sorriso de um Homem. A mãe, o morro morreram, também morri, morremos um pouco mais.
Rogério Dezzotti.


10:01
Fhenso Funk Music
0 comentários:
Postar um comentário